Observando o uso que fazemos dos mitos quando tentamos compreender o humano, notamos que sobressaem duas vertentes. Na primeira, conforme as teorizações iniciais do criador da psicanálise, Sigmund Freud, os mitos são usados para demonstrar a existência de desejos, pulsões, ‘instintos’. Eles são então criados como ressonadores de desejos que precisam permanecer escondidos na mente humana, produtora, pelo mesmo processo, de sonhos, devaneios, fantasias (inconscientes) e da arte.
Todos eles são considerados como formações de compromisso, formações substitutivas, cuja função é dissimular as verdadeiras motivações das pulsões, buscando algum modo de descarregá-las. Na segunda vertente os mitos são compreendidos como modelos de subjetivação, são eles que moldam nossas mentes. No primeiro uso, nós criamos os mitos e eles nos servem, nós os vivemos. No segundo, eles nos criam, nós os servimos e eles nos vivem. Em uma analogia, seria como se, num momento, dirigíssemos nosso carro e levássemos os mitos como passageiros e, em outro momento, nós fôssemos os passageiros e os mitos dirigissem nosso carro. Ambos os casos são produções coletivas, mas, no primeiro, a ênfase é biológica e, no segundo, cultural.
Contemporaneamente, predomina a idéia que os mitos, mesmo sem serem dialéticos, lógicos, produtores de verdade, educam, subjetivam e operam como marcadores de lugares sociais, institucionais e familiares e que, para definir os lugares de emergência do humano – bio-psico-social -, é imprescindível esta binocularidade de compreensão dos mitos, tanto como expressão da biologia, como produção cultural inter (família, instituições) e transubjetiva (grandes grupos, etnias), mas também subjetivadora (indivíduo, sujeito, pessoa).
Embora os mitos, como a arte, não sejam produtores de verdade como a ciência, eles residem na fenda entre o pensamento (individual) e a linguagem (coletiva). Eles obrigam o pensamento à busca de denotação no mundo e produzem o imaginário que, caso seja inundado pela experiência religiosa, mágica (como se dá com a criança), fazem a mente pensar pensamentos que só existem, de fato, na linguagem, mas parecem estar no mundo. Como para o psicanalista, o relevante em cada história é a expressão anímica, mágica, o conceito de mito aqui usado está ampliado para toda produção coletiva expressiva – contida em material verbal ou para-verbal – possuidora de vida, de partes de subjetividades, compreendida e sentida como histórias verdadeiras, abarcando as lendas urbanas, as histórias de grupos vários e pessoais além das muitas expressões da arte. Interessa menos o envelope onde está contido – linguagem, artes cênicas, plásticas – e mais a impregnação mágica associada à força de convicção, como se dá com o que sentimos como verdadeiro e real.
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